
Olá, amigos! Depois de muito tempo, reapareço neste digníssimo portal, na maior cara de pau do universo. Estive viajando o mundo (pelo Google Earth) e descobri coisas fascinantes... mas nada que interesse muito no momento. Ah, e continuo assistindo Chaves todas as manhãs antes de ir trabalhar, como já disse em artigo anterior. Então, de alguma forma, permanecemos conectados o tempo todo, eu e vocês.
Bom, deixando de enrolação, vamos ao que interessa. Após vários anos assistindo Chaves praticamente sem parar – credito o "praticamente" ao Sr. Silvio Santos – só nos últimos tempos fui me dar conta de que não é normal que um homem adulto encha a cabeça de uma criança de cascudos (muito bem representados, diga-se de passagem) em um programa infantil. Também não é muito bem visto que uma criança dê uma tijolada na cabeça de outra, ou a acerte com um pedaço de pau, entre outras coisas.
Vocês hão de convir comigo, é algo a se pensar. Foi publicada recentemente neste portal uma nota informando que a TV equatoriana considera Chaves violento. A notícia me pegou de surpresa, mas não porque alguém achou o programa violento, e sim porque “descobriram” que Chaves pode ser considerado violento. E isso de certa forma me assusta.
A agressão é um dos pilares que fazem Chaves funcionar. Sem essas pitadas de violência não haveria programa. Vejamos: Quico provoca Chaves, que parte para bater nele. Seu Madruga aparece na hora, por vezes conseguindo impedir o menino de bater no seu amigo. Quico grita por sua mãe, que aparece cega de ódio. O menino fala uma frase meio genérica, com sujeito oculto, algo como "Tentou me bater!". D. Florinda não perde tempo, e vai diretinho no Seu Madruga, que até então estava lá com a melhor das intenções, e dá-lhe um tapa na cara, daqueles bem servidos. Quico, que é um sacana, diga-se de passagem, não explica nada para sua mãe e ainda tripudia do pobre Madruga dando aquele “chute no cachorro morto”, com seu clássico “Gentalha, gentalha!”, mesmo sabendo que o seu vizinho do 74 não tinha absolutamente nada a ver com a história. Seu Madruga, revoltado, com toda razão, se limita a descarregar a raiva em seu chapéu azul (como eu queria ter um daquele). Só que o Chaves aparece e faz alguma gracinha. Resultado: "pééééiimmmmm"...
Isso acontece em todo santo episódio, com exceção de um ou outro, como o “Dia de São Valentim”. Mas não há como negar que vemos essa seqüência em 99,9% das vezes que assistimos o seriado.
Isso é ruim? Não, porque provavelmente isso que fez com que assistíssemos quando crianças. Foi o que nos atraiu lá nos anos 80, começo dos 90, quando muitos de nós começamos a assistir "Chaves". Essa pseudo-violência, o pastelão, são atrativos para crianças. Estão aí o Papa Léguas e Tom e Jerry, que não me deixam mentir. Hoje, nos interessamos por outras coisas dentro do programa, detalhes que passavam despercebidos quando éramos crianças; além da boa e velha nostalgia, claro. Mas a base é o historicamente tombado "péééiimmmmm", seguindo de risadas artificiais.
Está certo, esse é um lado do programa. Um lado bastante forte e evidente. Mas é só isso? "Chaves" se resume a mera violência de forma divertida?
Não. Não mesmo.
"Chaves" é muito mais que isso. Às vezes quase sinto em mim a dor de uma pancada sofrida pelo Quico ou pelo Seu Madruga. Mas existem outros elementos que não podem ser ignorados.
Chaves e Quico vivem às turras, até pelas próprias características de cada um. Quico é um menino classe média (não tão média assim, ou então não estaria vivendo em um cortiço) que vive querendo ostentar seus brinquedos novos para um menino morto de fome, mas que acima de tudo é um menino, e quer brincar com os brinquedos mais bonitos, mas não pode porque não são dele e estão longe de sua realidade. Apesar disso, Quico e Chaves são os melhores amigos um do outro. Já pudemos ver o Chaves, criado na rua sem pai nem mãe, defender o Quico, que é mimado e infinitamente mais inocente. Por vezes os dois se unem para tentar superar a esperteza da Chiquinha. Quando Carlos Villagrán saiu do seriado, Chaves perdeu uma parte de si mesmo, algo que nem a Chiquinha nem o Nhonho puderam repor. Ele perdeu um amigo. Alguém muito próximo dele, que o conhecia, que gostava dele e o respeitava.
E o Quico? É mau? Também não acredito. Lembram do episódio em que Seu Madruga e a Chiquinha seriam despejados da vila? O Quico chorou, minha gente. Ele chorou por um homem que vive beliscando-o e por uma menina que incitava o Chaves a bater nele. Na hora em que recebeu a notícia, ele não lembrou de nada disso, apenas viu que seus amigos vizinhos seriam despejados, e ele não queria que eles fossem embora. Cara, isso é lindo. E quando o Chaves voltou à vila, após ter sido acusado injustamente de ser ladrão? Quico queria se aproximar dele e foi impedido por D. Florinda. Mas desvencilhou-se da mãe e correu para abraçar o amigo, em uma das raras vezes em que foi desobediente à Valentona do 14.
Temos também o Seu Madruga. Vive beliscando e dando cascudos em crianças. Mas por que diabos ele nunca se defende quando D. Florinda investe contra ele? É tão simples, só dizer "Não fui eu, foi o Chaves!". Mas ele nunca o fez, nunca entregou o menino. Mesmo quando tenta explicar, começa suas frases de uma forma confusa, quando todos sabem que é fácil dizer quem foi. Ele tenta escapar do castigo, mas sem incriminar o Chaves. Não consegue, apanha e fica quieto.
E tem mais, por que ele não revida a injusta agressão contra a D. Florinda? Simplesmente porque ele não bate em mulheres. Se todos os homens fossem como o Seu Madruga não existiria Lei Maria da Penha. O cara é um lorde, vamos combinar.
Se eu continuar dando exemplos aqui, esse texto vai passar de um mero artigo para uma tese de mestrado. Então, para resumir a ópera, recomendo o episódio supramencionado do “Dia de São Valentim”. É o maior exemplo do que acabei de falar. “Chaves” tem violência sim, mas é muito, muito mais do que isso. Caso os pais mais preocupados (como os da TV equatoriana) não se convençam com essas linhas, recomendo que assistam junto com seus filhos. E quer saber? Chaves é bom, muito bom, e não há com quem discutir. Afinal, todo mundo gosta de Chaves.